
Durante décadas, Augusto Cury foi conhecido principalmente como escritor, psiquiatra e divulgador de ideias sobre ansiedade, educação emocional e funcionamento da mente. Seus livros chegaram a milhões de leitores, alguns foram adaptados para o cinema e o teatro, e seu nome passou a circular em escolas, empresas, consultórios e eventos de desenvolvimento humano. Em 2026, porém, ele assumiu um papel muito diferente: tornou-se candidato à Presidência da República pelo Avante.
A mudança despertou uma pergunta legítima. O que um autor especializado em comportamento humano pode oferecer à administração de um país complexo como o Brasil? A resposta não deve partir nem da admiração automática nem da rejeição antecipada. Escrever livros populares, formular conceitos psicológicos e falar para grandes públicos são experiências relevantes, mas governar exige capacidades adicionais: montar equipes técnicas, negociar com o Congresso, administrar o orçamento, estabelecer prioridades e transformar intenções em políticas públicas verificáveis.
Para compreender a candidatura, é necessário separar três dimensões. A primeira é a trajetória pessoal e intelectual de Augusto Cury. A segunda é o conjunto de ideias que aparece em suas obras. A terceira é seu programa político, que precisa ser avaliado pelos mesmos critérios aplicados a qualquer candidato: clareza, viabilidade, custo, base institucional e capacidade de execução.
Este artigo apresenta quem é Augusto Cury, quais são alguns de seus livros mais conhecidos, como suas ideias se relacionam com sua candidatura e em quais áreas ele afirma poder contribuir para o Brasil. Também examina os limites dessa passagem da psicologia para a política, porque uma análise séria precisa considerar tanto o potencial quanto os riscos.
O Que Você Vai Encontrar Neste Artigo
- Quem é Augusto Cury
- As obras que tornaram Augusto Cury conhecido
- Do consultório e dos livros para a política
- O que Augusto Cury propõe para o Brasil
- O que sua experiência pode acrescentar à Presidência
- Popularidade não é o mesmo que preparo
- Como avaliar a candidatura de forma racional
- O possível legado de sua candidatura
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Quem é Augusto Cury
Augusto Jorge Cury nasceu em Colina, no interior de São Paulo, em 1958. Formou-se em Medicina e construiu sua imagem pública como psiquiatra, professor, pesquisador e escritor. Sua produção concentra-se em temas como ansiedade, formação do pensamento, relações familiares, liderança, educação, prevenção de transtornos emocionais e desenvolvimento da autonomia psicológica.
O eixo central de seu trabalho é a chamada Teoria da Inteligência Multifocal. Em linhas gerais, Cury procura explicar como pensamentos e emoções são construídos e como o indivíduo pode assumir uma postura mais consciente diante da própria atividade mental. A linguagem de seus livros costuma combinar conceitos psicológicos, orientações práticas, observações sobre comportamento e, em algumas obras, narrativa ficcional.
Seu alcance editorial é um dos elementos mais visíveis de sua trajetória. O site oficial do autor informa dezenas de milhões de exemplares vendidos e presença internacional em mais de 70 países. Esses números são apresentados pela própria organização de Cury e servem para dimensionar sua popularidade, mas não substituem avaliação científica independente de suas teorias. Alcance comercial e validação acadêmica são critérios diferentes.
Essa distinção é importante porque o debate público frequentemente mistura autoridade, fama e competência. Uma pessoa pode comunicar temas psicológicos de modo eficiente e, ainda assim, ter suas formulações discutidas por pesquisadores. Da mesma forma, uma teoria pode ser útil como estrutura de reflexão pessoal sem possuir o mesmo estatuto de um protocolo clínico amplamente testado. Ao analisar Cury, é mais produtivo observar o que suas ideias propõem, onde elas podem ser úteis e quais afirmações exigem evidências adicionais.
Antes da candidatura, seu trabalho já tinha desdobramentos além dos livros. Projetos de educação socioemocional, cursos de gestão da emoção, palestras e iniciativas voltadas a famílias, professores e organizações ampliaram sua atuação. Essa experiência ajuda a explicar por que educação e saúde emocional aparecem com tanta força em seu discurso político.
As obras que tornaram Augusto Cury conhecido
A bibliografia de Augusto Cury é extensa e percorre ensaios, livros de orientação psicológica, textos sobre educação e romances. Em vez de tratar todos os títulos como equivalentes, é útil observar algumas obras que representam os temas mais recorrentes de sua produção.
O Vendedor de Sonhos
O Vendedor de Sonhos é uma de suas obras mais conhecidas. O romance acompanha um personagem que interfere em situações de sofrimento e convida outras pessoas a reverem o sentido que atribuem à vida, ao sucesso e às relações humanas. A narrativa trabalha questões como desespero, dignidade, empatia, crítica ao consumismo e reconstrução de propósito.
O livro ganhou continuações e adaptação cinematográfica. Sua importância na carreira de Cury está na capacidade de traduzir discussões existenciais para uma narrativa acessível. Em vez de apresentar apenas conceitos, a obra organiza conflitos psicológicos em torno de personagens e decisões. Esse formato aproximou o autor de leitores que talvez não procurassem um texto técnico sobre saúde mental.
Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século
Neste livro, Cury aborda a aceleração do pensamento, o excesso de estímulos, a antecipação de problemas e a dificuldade de descansar mentalmente. O tema encontrou grande identificação social porque ansiedade, pressão por desempenho e sobrecarga informacional fazem parte da vida cotidiana de milhões de pessoas.
A contribuição prática do livro está em chamar atenção para hábitos mentais que intensificam o sofrimento: ruminação, necessidade de controle, autocobrança e exposição constante a informações. Ao mesmo tempo, é necessário cuidado para não tratar toda ansiedade como um problema resolvido por leitura ou disciplina pessoal. Transtornos de ansiedade podem exigir avaliação e tratamento conduzidos por profissionais qualificados.
Pais Brilhantes, Professores Fascinantes
Nesta obra, Cury discute a formação emocional de crianças e adolescentes e diferencia a transmissão de informações da formação de pensadores. O livro defende que pais e professores não deveriam se limitar a cobrar desempenho ou impor regras, mas ajudar os jovens a compreender emoções, lidar com frustrações, desenvolver empatia e pensar antes de reagir.
A mensagem dialoga com uma dificuldade real da educação: uma escola pode transmitir conteúdo sem ensinar o aluno a lidar com conflitos, pressão, medo de errar e convivência. O mérito da proposta está em ampliar o conceito de educação. O desafio é transformar princípios gerais em práticas que respeitem formação docente, evidências pedagógicas, diversidade regional e condições concretas das escolas.
O Código da Inteligência
O Código da Inteligência apresenta habilidades que Cury associa à autonomia mental, como autocrítica, resiliência, gestão dos pensamentos e capacidade de colocar-se no lugar do outro. A obra questiona a ideia de que inteligência se resume a memória, raciocínio lógico ou desempenho acadêmico.
Esse argumento tem implicações políticas. Uma sociedade democrática depende de cidadãos capazes de avaliar informações, tolerar divergências e corrigir as próprias posições. Entretanto, essas competências não surgem por decreto. Elas exigem educação de qualidade, ambientes familiares minimamente seguros, acesso à cultura e instituições que não recompensem permanentemente a desinformação e a agressividade.
Gestão da Emoção
Em seus trabalhos sobre gestão da emoção, Cury insiste que o indivíduo não controla tudo o que sente ou pensa, mas pode desenvolver maior consciência sobre as próprias respostas. A ideia não é eliminar emoções negativas, e sim evitar que impulsos determinem automaticamente decisões e relacionamentos.
Aplicado à vida pública, esse princípio sugere uma política menos governada por ressentimento, medo e culto a adversários. Mas existe uma diferença entre defender equilíbrio emocional e solucionar conflitos sociais. Polarização não nasce apenas de temperamentos individuais; também é alimentada por desigualdade, competição por recursos, estratégias partidárias, incentivos das plataformas digitais e disputas reais de interesse.
Do consultório e dos livros para a política
A entrada de Augusto Cury na política nacional ocorreu sem uma carreira eleitoral anterior comparável à dos candidatos tradicionais. Ele anunciou a intenção de disputar a Presidência, filiou-se ao Avante e teve a candidatura oficializada pelo partido em 2026. Seu vice é Júlio Delgado, ex-deputado federal com cinco mandatos, cuja presença acrescenta experiência parlamentar à chapa.
Segundo a matéria da Veja utilizada como referência, a candidatura está apoiada por uma estrutura menos improvisada do que sua imagem de estreante poderia sugerir. O Avante possui acesso a recursos partidários e tempo de propaganda, e a equipe reúne profissionais experientes em campanhas nacionais. A reportagem também descreve a legenda como pragmática, com histórico de apoio a diferentes campos políticos.
Cury procura apresentar-se como alternativa à polarização. Essa posição pode atrair eleitores cansados da hostilidade entre grupos e da redução do debate nacional a identidades partidárias. Psicologicamente, a promessa de pacificação tem força porque oferece uma saída para a sensação de conflito permanente.
No entanto, rejeitar rótulos de esquerda e direita não elimina escolhas ideológicas. Qualquer governo precisa decidir como arrecadar e gastar, qual papel atribuir ao Estado, como regular mercados, quais reformas priorizar e como distribuir custos. Mesmo uma candidatura que se declare acima da polarização terá de tomar decisões que beneficiam alguns interesses, limitam outros e geram oposição.
O teste, portanto, não é saber se Cury fala em paz. É verificar como essa paz seria buscada sem neutralizar divergências legítimas, esconder conflitos distributivos ou reduzir oposição política a falta de equilíbrio emocional.
O que Augusto Cury propõe para o Brasil
O programa associado à candidatura apresenta forte ênfase em saúde emocional, educação, neuroinclusão, empreendedorismo e reformas institucionais. A seguir, os principais eixos são analisados como propostas declaradas, não como resultados garantidos.
Saúde mental e prevenção
O tema mais coerente com a trajetória de Cury é a saúde mental. Seu discurso parte do diagnóstico de que o Brasil enfrenta uma população emocionalmente sobrecarregada e de que o poder público costuma agir tarde, quando o sofrimento já se transformou em crise, afastamento do trabalho, abandono escolar ou necessidade de atendimento especializado.
Uma agenda preventiva pode trazer ganhos reais. Programas de identificação precoce, formação de profissionais da atenção básica, orientação a famílias, combate ao estigma e articulação entre saúde e educação podem reduzir sofrimento e facilitar acesso ao cuidado. Também é razoável defender que políticas de saúde mental não se limitem à internação ou ao atendimento em situações extremas.
Mas prevenção não pode ser confundida com slogans sobre pensamento positivo. Uma política nacional precisa integrar o Sistema Único de Saúde, os Centros de Atenção Psicossocial, a atenção primária, os serviços de emergência e as redes de proteção social. Precisa ainda definir público, método, formação, indicadores, custo e mecanismos de encaminhamento.
O principal potencial de Cury nessa área é elevar o tema ao centro do debate presidencial. O principal risco é personalizar excessivamente a política em seus próprios métodos, sem comparação suficiente com programas baseados em evidências ou sem participação ampla de especialistas independentes.
Educação emocional nas escolas
Outro eixo recorrente é a incorporação de competências emocionais ao ambiente escolar. A proposta parte de uma constatação válida: estudantes aprendem em condições afetivas e sociais concretas. Ansiedade, violência, humilhação, insegurança alimentar, conflitos familiares e medo de fracassar interferem no aprendizado.
Uma política bem desenhada poderia formar professores para reconhecer sinais de sofrimento, fortalecer convivência, prevenir violência, ensinar resolução de conflitos e criar canais de apoio. Também poderia estimular pensamento crítico, escuta e tolerância à frustração sem transformar a escola em consultório.
O cuidado necessário é não sobrecarregar docentes que já enfrentam turmas numerosas, baixos salários e falta de estrutura. Educação emocional exige materiais adequados, equipes multiprofissionais, avaliação e respeito aos limites da função pedagógica. Professores não devem receber a responsabilidade de diagnosticar ou tratar transtornos.
Se Cury conseguisse converter sua experiência de comunicação em uma política construída com educadores, psicólogos, pesquisadores e gestores públicos, poderia contribuir para ampliar uma dimensão negligenciada da escola. Se a proposta fosse implementada como pacote fechado associado a uma única teoria, sua abrangência e legitimidade seriam menores.
Neuroinclusão
A candidatura também destaca políticas para pessoas neurodivergentes, incluindo autismo, TDAH, dislexia, transtornos de aprendizagem e altas habilidades. O tema envolve desafios que atravessam saúde, educação, assistência social, trabalho e direitos humanos.
Uma estratégia nacional poderia melhorar diagnóstico, reduzir filas, apoiar famílias, qualificar escolas e criar condições para inclusão profissional. Também precisaria combater dois extremos: a exclusão de quem necessita de apoio e a banalização de diagnósticos sem avaliação adequada.
Nesse campo, boas intenções devem ser acompanhadas por critérios técnicos e participação direta das pessoas afetadas. Nenhum projeto de neuroinclusão deve ser formulado apenas por especialistas, familiares ou autoridades. Pessoas neurodivergentes precisam ter voz na definição de políticas que interferem em suas vidas.
Combate à violência contra mulheres e proteção de crianças
O programa divulgado pela candidatura inclui iniciativas voltadas à proteção de mulheres e à escuta de crianças e adolescentes. A preocupação é relevante, mas sua eficácia dependerá de integração com estruturas que já existem: rede de assistência, delegacias, Judiciário, escolas, conselhos tutelares e serviços de saúde.
Tecnologia pode auxiliar no acionamento de serviços, no mapeamento de risco e no acompanhamento de medidas protetivas. Entretanto, ela não substitui profissionais, abrigos, investigação, resposta rápida e proteção econômica. Uma vítima pode conhecer o canal de denúncia e ainda permanecer vulnerável se não houver atendimento local ou condições materiais para romper com o agressor.
Para produzir resultado, qualquer proposta precisa responder a perguntas objetivas: quem receberá o alerta, em quanto tempo, com qual equipe, sob qual protocolo e com que proteção de dados? Sem essa arquitetura, inovação corre o risco de funcionar apenas como imagem de campanha.
Empreendedorismo e economia distribuída
Cury também associa desenvolvimento humano a empreendedorismo. A ideia de ampliar oportunidades fora dos grandes centros pode ser positiva, especialmente em regiões com baixa oferta de emprego formal e pouca diversificação econômica.
Mas estimular empreendedorismo não significa apenas ensinar motivação ou criar cursos. Pequenos negócios dependem de crédito, infraestrutura, segurança jurídica, acesso a mercados, tecnologia, logística e demanda. Muitos brasileiros empreendem por necessidade e permanecem em situação precária. Uma política responsável precisa distinguir empreendedorismo produtivo de transferência do risco econômico para o indivíduo.
A experiência de Cury com educação e liderança pode contribuir para programas de formação. Ainda assim, decisões macroeconômicas exigem equipes com domínio de orçamento, tributação, produtividade, comércio exterior, política industrial e desigualdade regional. É nesse ponto que a composição técnica de um eventual governo se tornaria mais importante do que a especialidade pessoal do presidente.
Reformas políticas e semipresidencialismo
Entre as propostas institucionais aparece a discussão sobre semipresidencialismo. Nesse modelo, o presidente divide funções de governo com um primeiro-ministro apoiado pelo Parlamento. Defensores afirmam que a fórmula pode reduzir crises entre Executivo e Legislativo; críticos temem confusão de responsabilidades, aumento do poder das cúpulas partidárias e adaptação inadequada ao sistema brasileiro.
Uma mudança dessa magnitude não depende apenas da vontade presidencial. Exige debate constitucional, apoio parlamentar e definição minuciosa de competências. Também não resolve automaticamente fragmentação partidária, baixa confiança institucional ou práticas de barganha.
O mérito de propor uma reforma está em estimular discussão sobre governabilidade. O risco está em apresentar mudança institucional como resposta simples para problemas que possuem várias causas. Sistemas políticos funcionam de acordo com regras formais, cultura institucional, qualidade dos partidos e comportamento dos agentes.
O que sua experiência pode acrescentar à Presidência
Augusto Cury possui algumas características que podem ser úteis na vida pública. A primeira é a capacidade de comunicação. Ele construiu carreira explicando ideias abstratas para públicos amplos, competência importante para um presidente que precisa apresentar prioridades, reduzir ruído e dialogar com diferentes grupos.
A segunda é a familiaridade com temas humanos frequentemente tratados como periféricos. Saúde mental, prevenção do sofrimento, relações familiares e educação emocional afetam produtividade, violência, aprendizagem e qualidade de vida. Colocá-los no centro do planejamento público poderia corrigir uma lacuna histórica.
A terceira é a tentativa de falar com eleitores fora das identidades políticas mais rígidas. Em um ambiente dominado por antagonismo, uma candidatura orientada ao diálogo pode abrir espaço para pautas menos dependentes de guerra cultural.
No entanto, essas qualidades não bastam. A Presidência não é uma extensão de uma palestra, de uma clínica ou de uma editora. O cargo envolve decisões sobre defesa, energia, infraestrutura, pacto federativo, orçamento, política externa, segurança pública, regulação, previdência e resposta a crises. Nenhum candidato domina pessoalmente todas essas áreas, mas precisa demonstrar critérios sólidos para escolher equipes, arbitrar conflitos e acompanhar resultados.
Outro desafio é a negociação. Cury pode defender pacificação, mas governar exige construir maioria em um Congresso fragmentado sem abandonar princípios nem transformar coalizão em distribuição descontrolada de poder. Sua associação com o Avante oferece estrutura política, mas também o vincula à história, aos dirigentes e às estratégias da legenda. A equipe experiente reduz o improviso eleitoral, porém não garante qualidade administrativa.
Por isso, a melhor forma de avaliar o que Cury pode fazer pelo Brasil é abandonar a pergunta messiânica — “ele salvará o país?” — e adotar perguntas institucionais: quais metas são mensuráveis? Quanto custam? Quem executará? Quais programas existentes serão ampliados, alterados ou encerrados? Como serão avaliados? Qual é a estratégia para obter apoio no Congresso? Quais limites legais e orçamentários foram considerados?
Popularidade não é o mesmo que preparo
O sucesso editorial de Augusto Cury revela capacidade de alcançar pessoas e interpretar preocupações difundidas. Isso explica parte do interesse por sua candidatura. Muitos eleitores veem nele uma figura externa à política tradicional, com discurso voltado à saúde emocional e menos associado ao confronto partidário.
Mas a imagem de outsider precisa ser examinada com cuidado. Nenhuma candidatura presidencial é realmente independente das estruturas políticas. Para concorrer, é necessário partido, financiamento, equipe jurídica, comunicação, alianças e presença regional. A matéria da Veja mostra justamente que, por trás do perfil pouco convencional, existe uma estrutura partidária e profissional organizada.
Isso não é necessariamente negativo. Campanhas nacionais exigem organização. A questão é saber quais compromissos essa estrutura cria, quem participa das decisões e como será preservada a transparência. O eleitor não deve avaliar apenas o candidato visível, mas também o partido, o vice, os financiadores, os coordenadores e os grupos que poderão ocupar posições em um eventual governo.
Também é importante diferenciar conhecimento sobre comportamento humano de capacidade para solucionar problemas econômicos e institucionais. Um presidente pode usar princípios de diálogo e autocontrole para melhorar decisões, mas ainda precisará escolher entre alternativas técnicas com custos e efeitos distintos. A gestão emocional pode qualificar a forma de governar; não substitui política econômica, desenho administrativo ou avaliação de impacto.
Como avaliar a candidatura de forma racional
O eleitor interessado em Augusto Cury pode começar pelo próprio programa de governo, em vez de depender apenas de entrevistas, vídeos curtos ou frases de campanha. É necessário observar se as propostas apresentam metas, prazos, fontes de financiamento, responsáveis e indicadores.
Também vale comparar o discurso atual com a trajetória do candidato. Seus projetos anteriores produziram resultados mensuráveis? Foram avaliados por instituições independentes? As iniciativas podem ser adaptadas à escala nacional? Existem conflitos de interesse entre métodos, empresas, marcas e políticas propostas?
Outro critério é a equipe. Quem são os especialistas responsáveis por economia, segurança, saúde, educação, meio ambiente e relações exteriores? Qual experiência possuem? Uma candidatura centrada demais em uma personalidade tende a ocultar a complexidade do governo.
O eleitor também deve observar como Cury reage a críticas. Conhecimento psicológico não se prova pela serenidade em situações controladas, mas pela capacidade de ouvir objeções, admitir limites, corrigir informações e conviver com fiscalização. Um presidente será contestado pela imprensa, por adversários, pelo Judiciário, pelo Congresso e pela sociedade civil.
Por fim, é preciso analisar o partido. A filiação ao Avante não é um detalhe burocrático. Partidos selecionam candidaturas, recebem recursos, formam bancadas e participam da governabilidade. Conhecer a história da legenda e seus representantes ajuda a compreender a coalizão real por trás do nome de Cury.
O possível legado de sua candidatura
Mesmo antes do resultado eleitoral, a presença de Augusto Cury pode produzir um efeito relevante: obrigar a disputa presidencial a discutir saúde mental, sofrimento emocional, formação socioemocional e neuroinclusão com maior visibilidade. Candidaturas também influenciam a agenda pública quando introduzem temas que outros concorrentes passam a responder.
Esse legado, contudo, dependerá da qualidade do debate. Se saúde mental for usada apenas como marca pessoal, o tema pode ser simplificado. Se vier acompanhada de dados, diálogo com o SUS, respeito à ciência, participação social e propostas executáveis, a candidatura poderá elevar o nível da discussão.
O mesmo vale para a pacificação política. O Brasil precisa reduzir a desumanização do adversário e recuperar capacidade de cooperação. Mas paz democrática não significa ausência de oposição, submissão ou concordância artificial. Significa disputar projetos dentro das regras, reconhecer a legitimidade do outro e preservar instituições mesmo diante de derrotas.
Conclusão
Augusto Cury chega à política com uma trajetória incomum para um candidato presidencial. É um escritor de grande alcance, médico psiquiatra, comunicador e criador de projetos voltados à gestão da emoção e à educação. Obras como O Vendedor de Sonhos, Ansiedade: Como Enfrentar o Mal do Século, Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, O Código da Inteligência e Gestão da Emoção ajudam a compreender os temas que orientam sua visão pública.
Sua principal contribuição potencial está em ampliar o espaço concedido à saúde mental, à prevenção, à educação emocional e à neuroinclusão. Também pode oferecer uma linguagem menos agressiva em um cenário polarizado. Entretanto, esses atributos só se transformarão em capacidade de governo se forem acompanhados por equipes qualificadas, propostas baseadas em evidências, responsabilidade fiscal, transparência, negociação democrática e avaliação constante.
O eleitor não precisa escolher entre idealização e desprezo. Pode reconhecer a relevância das questões levantadas por Cury e, ao mesmo tempo, exigir respostas técnicas. Pode valorizar sua capacidade de comunicação sem confundi-la com domínio de todas as áreas do Estado. Pode considerar positiva a defesa do diálogo sem deixar de examinar o partido e a estrutura que sustentam sua candidatura.
O que Augusto Cury pode fazer pelo Brasil não depende apenas das ideias presentes em seus livros. Depende de sua capacidade de sair do campo das mensagens inspiradoras e entrar no terreno difícil da execução pública. É nesse ponto — entre intenção, método e resultado — que sua candidatura deve ser avaliada.
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Fontes
- Quem está por trás da candidatura de Augusto Cury à Presidência — Veja
- Augusto Cury — site oficial
- Avante oficializa Augusto Cury como candidato à Presidência — Agência Brasil
- Eleições 2026: conheça as propostas e o perfil de Augusto Cury — Band
- Plano de governo de Augusto Cury apresentado ao TSE — consulta pública reproduzida pelo Polyapoio

